sábado, 30 de março de 2013

O Coach John Baker - 2ª Parte

Um Treinador que se importava

Na formatura, Baker analisou suas opções. Recebeu ofertas para ser treinador em várias faculdades, mas ele sempre planejara trabalhar com crianças. E havia também o fato de ele ser um atleta. Baker se perguntava se era sufi­cientemente bom para ir às Olimpíadas. Por fim, aceitou um emprego que lhe permitiria conciliar seus desejos: tornou-se treinador na Escola Primária de Aspen, em Albuquerque, e, ao mesmo tempo, recomeçou seu rigoroso treina­mento visando aos Jogos de 1972. Em Aspen surgiu uma outra faceta do seu caráter. Nas suas aulas nenhum dos alunos era tratado como estrela e não havia críticas por falta de habilidade. Ele só exigia que cada criança procurasse dar o máximo de si. Esse de justiça, somado a uma inequívoca e sincera preocupação com o bem-estar dos alunos, fez com que as queixas das crianças fossem levadas primeiro ao treinador Baker. Reais ou imaginárias, cada uma delas era tratada como se, naquele momento, se tratasse da questão mais importante do mundo. E a fama se espalhou: “O treinador se importa conosco?”
No início de maio de 1969, pouco antes de seu 25º aniversário, Baker percebeu que se cansava com facilidade durante os treinos. Duas semanas mais tarde começou a sentir dores no peito e finalmente acordou numa manhã com a virilha inchada.O urologista Edward Johnson imediatamente marcou uma cirurgia exploratória. Os temores de Johnson se confirmaram. Havia um tumor em um dos testículos de Baker, e o câncer já se espalhara. Embora não o dissesse, o  medico calculou que, mesmo com uma segunda cirurgia, Baker teria aproximadamente seis meses de vida.

Em casa, recuperando-se da segunda cirurgia, Baker enfrentou sua sombria realidade. Não haveria mais competições, e ele não iria às Olimpíadas. Provavelmente sua carreira como treinador estaria encerrada. E, pior que tudo, sua famiia enfrentaria meses de angústia.
À Beira do Precipício

No domingo antes da segunda cirurgia, Baker saiu sozinho e foi dar uma volta de carro pelas montanhas. Demorou horas e quando voltou para casa à noite, seu humor mudara consideravelmente. O sorriso habitual que tinha desaparecido de seu rosto estava de volta. Além disso, pela primeira vez em duas semanas ele falou sobre planos futuros. Mais tarde, naquela noite, contou à sua irmã Jill o que tinha acontecido naquele claro dia de junho.Baker tinha dirigido até Sandia Crest, o pico da majestosa montanha de 3.200 metros de altura que domina o horizonte leste de Albuquerque. Sentado em seu carro à beira do precipício, pensou na longa agonia que sua doença causaria à família e se deu conta de que poderia acabar com o sofrimento deles e o seu próprio em um instante. Com uma prece silenciosa, engrenou a marcha à ré do carro e buscou o freio de mão. De repente, uma visão brilhou diante de seus olhos — os rostos das crianças da escola primária de Aspen, as crianças a quem ele tinha ensinado a dar o máximo de si. Que tipo de men­sagem seu suicídio transmitiria a elas? Profundamente envergonhado, des­ligou o carro, afundou-se no assento e chorou. Após algum tempo, sentiu-se mais calmo e percebeu que estava em paz. Qualquer que seja o tempo que ainda me resta, disse para si mesmo, vou dedicá-lo às crianças.
Em setembro, após uma demorada cirurgia e meses de tratamento, Baker retornou a seu emprego e acrescentou à sua lotada agenda um novo com­promisso — esportes para deficientes fisicos. Quaisquer que fossem as suas enfermidades, crianças que até então tinham ficado marginalizadas agora assumiam posições como “controlador de tempo do treinador” ou “supervisor­chefe dos equipamentos”, todas vestindo as camisetas oficiais de Aspen, todas candidatas a receber uma fita do treinador Baker por se esforçarem muito. Ele mesmo confeccionou as fitas com material comprado com o próprio dinheiro.

O Sofrimento Silencioso
Perto do Dia de Ação de Graças, cartas louvando Baker, vindas de pais agradecidos, chegavam quase que diariamente a Aspen (mais de 500 cartas em menos de um ano). “Meu filho era um monstro pela manhã”, uma mãe es­creveu. “Tirá-lo da cama, alimentá-lo e levá-lo à escola era insuportável. Agora, pula da cama e mal consegue esperar. Ele é o principal ajudante da quadra”
“Apesar das declarações de meu filho, eu não podia acreditar que houvesse um super-homem em Aspen”, escreveu outra mãe. “Fui, em segredo, observar o treinador Baker com as crianças. Meu filho estava certo”

Uma carta de um casal de avós: “Em outras escolas, nossa neta sofria terri­velmente por causa de sua deficiência. Mas nesse maravilhoso ano em Aspen recebeu do treinador Baker a nota máxima por tentar fazer o melhor possível. Deus abençoe esse jovem que deu autoconflança a uma criança tímida”
Em dezembro, durante uma visita de rotina ao médico, Baker reclamou de dores na garganta e na cabeça. Os testes confirmaram que o câncer tinha se espalhado para seu pescoço e cérebro. Durante quatro meses ele sofrera em silêncio dores intensas usando seu incrível poder de concentração para o sofrimento, assim como o tinha usado para vencer o cansaço enquanto corria. O médico sugeriu injeções para amenizar a dor. Baker balançou a cabeça.

— Quero trabalhar com as crianças enquanto puder — disse. — As injeções entorpeceriam a minha sensibilidade.
- A partir daquele momento — comentou mais tarde o diretor da escola — passei a considerar John Baker uma das pessoas mais generosas que já conheci.

Taças para as Dashers
No início de 1970, Baker foi convidado para ajudar a treinar um pequeno clule de atletismo para meninas em Albuquerque. Seu nome: as Duke City Dashers. Ele concordou na hora, e, assim como as crianças de Aspen, as meninas do Dashers responderam ao novo treinador com entusiasmo.Um dia ele chegou para o treino carregando uma caixa de sapatos. Anunciou que ela continha dois prêmios: um para a menina vencedora e um a menina que, embora nunca vencesse, jamais desistia. Quando Baker abriu a caixa houve uma exclamação geral. Dentro da caixa estavam duas brilhantes taças de ouro. Meses depois, a família dele descobriria que os tro­féus eram os que ele tinha recebido quando corria, com seu nome cuidado­samente raspado.

No verão, o Duke City Dashers eram uma equipe que inspirava respeito, quebrando recorde após recorde em competições por todo o Novo México e estados vizinhos. Orgulhosamente, Baker fez uma previsão ousada: “As Dashers estarão nas finais do campeonato nacional.”

Mas agora um novo problema o atormentava. As freqüentes sessões de quimioterapia lhe causavam intensas náuseas e ele não conseguia se ali­mentar. No entanto, apesar da crescente diminuição da resistência, continuava a supervisionar as Dashers, geralmente sentado em uma pequena colina acima da área de treinamento, de onde gritava, incentivando-as. Uma tarde de outubro, após uma reunião na pista, uma das meninas subiu a colina correndo em direção a Baker.
— Ei, treinador! — ela gritou. — A sua previsão se confirmou! Nós fomos convocadas para as finais em Saint Louis no próximo mês.
Radiante, ele confidenciou a amigos que tinha ainda uma esperança — viver o suficiente para ir com elas.

Caminhando de Cabeça Erguida
Porém, isso não aconteceria. Na manhã de 28 de outubro, em Aspen, ele de repente levou as mãos ao abdômen e desmaiou no campo. Os exames reve­laram que o tumor se rompera, desencadeando o choque. Recusando-se a ir para o hospital, ele insistiu em voltar à escola para um último dia. Disse a seus pais que queria que as crianças se lembrassem dele caminhando de cabeça erguida. Apesar de mantido por maciças transfusões de sangue e por sedativos, ele percebeu que a viagem para Saint Louis seria impossível. Começou então a telefonar para as Dashers todas as noites, estimulando cada uma a dar o máximo de si nas finais.

No início da noite de 23 de novembro, Baker desmaiou outra vez. Quase inconsciente, enquanto os enfermeiros o colocavam numa ambulância, ele sussurrou para seus pais:

— Certifiquem-se de que as luzes estejam acesas. Quero ir embora em grande estilo.
Logo após o amanhecer de 26 de novembro, virou-se na cama do hospital para a mãe, que segurava suas mãos, e disse:

— Sinto ter lhe dado tanto trabalho. — Com um último suspiro, fechou os olhos. Era o Dia de Ação de Graças de 1970, 18 meses após sua primeira visita ao Dr. Johnson. Tinha superado os prognósticos em relação à sua morte por 12 meses.

Dois dias depois, com lágrimas escorrendo por seus rostos, as Duke City Dashers venceram o campeonato em Saint Louis — “para o treinador Baker”.

Esse seria o final da história de John Baker, exceto por um fenômeno que ocorreu após seu funeral. Algumas das crianças de Aspen passaram a chamar sua escola de “Escola John Baker” — a idéia de mudança do nome se espalhou como vento. Começou, então, um movimento para tornar o novo nome oficial.

—A escola é nossa — as crianças diziam — e queremos chamá-la de John Baker. As autoridades de Aspen levaram o assunto ao comitê educacional de Albu­aerque, que sugeriu um plebiscito. No início da primavera de 1971, 520 famil­ias do distrito de Aspen votaram. Foram 520 votos a favor.
No mês de maio daquele ano, em cêrimonia da qual participaram centenas de amigos de Baker acompanhados de seus filhos, a escola de Aspen oficialmente passou a se chamar Escola Primaria John Baker. Ela permanece hoje como um monumento visível a um corajoso jovem que em seus momentos mais dolorosos transformou uma amarga tragédia em um permanente legado.John Baker não escolheu ter câncer, mas de fato escolheu sua resposta à doença. Ele decidiu fazer uma contribuição. Ao concentrar suas últimas energias nos corações e nas personalidades das crianças, deixou um duradouro ­legado nas vidas daqueles que tiveram a sorte de conhecer sua força moral e seu vigor. Ao fazê-lo, ele certamente foi recompensado com os prêmios que recebem aqueles que têm uma vida cheia de pro­pósitos e de significado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário