Na formatura, Baker
analisou suas opções. Recebeu ofertas para ser treinador em várias faculdades,
mas ele sempre planejara trabalhar com crianças. E havia também o fato de ele
ser um atleta. Baker se perguntava se era suficientemente bom para ir às
Olimpíadas. Por fim, aceitou um emprego que lhe permitiria conciliar seus
desejos: tornou-se treinador na Escola Primária de Aspen, em Albuquerque, e, ao
mesmo tempo, recomeçou seu rigoroso treinamento visando aos Jogos de 1972. Em Aspen surgiu uma
outra faceta do seu caráter. Nas suas aulas nenhum dos alunos era tratado como
estrela e não havia críticas por falta de habilidade. Ele só exigia que cada
criança procurasse dar o máximo de si. Esse de justiça, somado a uma inequívoca
e sincera preocupação com o bem-estar dos alunos, fez com que as queixas das crianças
fossem levadas primeiro ao treinador Baker. Reais ou imaginárias, cada uma
delas era tratada como se, naquele momento, se tratasse da questão mais
importante do mundo. E a fama se espalhou: “O treinador se importa conosco?”
No início de maio de
1969, pouco antes de seu 25º aniversário, Baker percebeu que se cansava com
facilidade durante os treinos. Duas semanas mais tarde começou a sentir dores
no peito e finalmente acordou numa manhã com a virilha inchada.O urologista Edward
Johnson imediatamente marcou uma cirurgia exploratória. Os temores de Johnson
se confirmaram. Havia um tumor em um dos testículos de Baker, e o câncer já se
espalhara. Embora não o dissesse, o
medico calculou que, mesmo com uma segunda cirurgia, Baker teria
aproximadamente seis meses de vida.
Em casa,
recuperando-se da segunda cirurgia, Baker enfrentou sua sombria realidade. Não
haveria mais competições, e ele não iria às Olimpíadas. Provavelmente sua
carreira como treinador estaria encerrada. E, pior que tudo, sua famiia enfrentaria
meses de angústia.
À
Beira do Precipício
No domingo antes da
segunda cirurgia, Baker saiu sozinho e foi dar uma volta de carro pelas
montanhas. Demorou horas e quando voltou para casa à noite, seu humor mudara
consideravelmente. O sorriso habitual que tinha desaparecido de seu rosto
estava de volta. Além disso, pela primeira vez em duas semanas ele falou sobre
planos futuros. Mais tarde, naquela noite, contou à sua irmã Jill o que tinha
acontecido naquele claro dia de junho.Baker tinha dirigido
até Sandia Crest, o pico da majestosa montanha de 3.200 metros de altura
que domina o horizonte leste de Albuquerque. Sentado em seu carro à beira do
precipício, pensou na longa agonia que sua doença causaria à família e se deu
conta de que poderia acabar com o sofrimento deles e o seu próprio em um
instante. Com uma prece silenciosa, engrenou a marcha à ré do carro e buscou o
freio de mão. De repente, uma visão brilhou diante de seus olhos — os rostos
das crianças da escola primária de Aspen, as crianças a quem ele tinha ensinado
a dar o máximo de si. Que tipo de mensagem seu suicídio transmitiria a elas?
Profundamente envergonhado, desligou o carro, afundou-se no assento e chorou.
Após algum tempo, sentiu-se mais calmo e percebeu que estava em paz. Qualquer que
seja o tempo que ainda me resta, disse para si mesmo, vou dedicá-lo às
crianças.
Em setembro, após uma
demorada cirurgia e meses de tratamento, Baker retornou a seu emprego e
acrescentou à sua lotada agenda um novo compromisso — esportes para deficientes
fisicos. Quaisquer que fossem as suas enfermidades, crianças que até então
tinham ficado marginalizadas agora assumiam posições como “controlador de tempo
do treinador” ou “supervisorchefe dos equipamentos”, todas vestindo as
camisetas oficiais de Aspen, todas candidatas a receber uma fita do treinador
Baker por se esforçarem muito. Ele mesmo confeccionou as fitas com material
comprado com o próprio dinheiro.
O
Sofrimento Silencioso
Perto do Dia de Ação
de Graças, cartas louvando Baker, vindas de pais agradecidos, chegavam quase
que diariamente a Aspen (mais de 500 cartas em menos de um ano). “Meu filho era
um monstro pela manhã”, uma mãe escreveu. “Tirá-lo da cama, alimentá-lo e
levá-lo à escola era insuportável. Agora, pula da cama e mal consegue esperar.
Ele é o principal ajudante da quadra”“Apesar das declarações de meu filho, eu não podia acreditar que houvesse um super-homem em Aspen”, escreveu outra mãe. “Fui, em segredo, observar o treinador Baker com as crianças. Meu filho estava certo”
Uma carta de um casal
de avós: “Em outras escolas, nossa neta sofria terrivelmente por causa de sua
deficiência. Mas nesse maravilhoso ano em Aspen recebeu do treinador Baker a
nota máxima por tentar fazer o melhor possível. Deus abençoe esse jovem que deu
autoconflança a uma criança tímida”
Em dezembro, durante
uma visita de rotina ao médico, Baker reclamou de dores na garganta e na
cabeça. Os testes confirmaram que o câncer tinha se espalhado para seu pescoço
e cérebro. Durante quatro meses ele sofrera em silêncio dores intensas usando
seu incrível poder de concentração para o sofrimento, assim como o tinha usado
para vencer o cansaço enquanto corria. O médico sugeriu injeções para amenizar
a dor. Baker balançou a cabeça.
— Quero trabalhar com
as crianças enquanto puder — disse. — As injeções entorpeceriam a minha
sensibilidade.
- A partir daquele
momento — comentou mais tarde o diretor da escola — passei a considerar John
Baker uma das pessoas mais generosas que já conheci.
Taças
para as Dashers
No início de 1970,
Baker foi convidado para ajudar a treinar um pequeno clule de atletismo para
meninas No verão, o Duke City Dashers eram uma equipe que inspirava respeito, quebrando recorde após recorde em competições por todo o Novo México e estados vizinhos. Orgulhosamente, Baker fez uma previsão ousada: “As Dashers estarão nas finais do campeonato nacional.”
Mas agora um novo
problema o atormentava. As freqüentes sessões de quimioterapia lhe causavam
intensas náuseas e ele não conseguia se alimentar. No entanto, apesar da
crescente diminuição da resistência, continuava a supervisionar as Dashers,
geralmente sentado em uma pequena colina acima da área de treinamento, de onde
gritava, incentivando-as. Uma tarde de outubro,
após uma reunião na pista, uma das meninas subiu a colina correndo em direção a
Baker.
— Ei, treinador! —
ela gritou. — A sua previsão se confirmou! Nós fomos convocadas para as finais em Saint Louis no próximo
mês.
Radiante, ele
confidenciou a amigos que tinha ainda uma esperança — viver o suficiente para
ir com elas.
Caminhando
de Cabeça Erguida
Porém, isso não
aconteceria. Na manhã de 28 de outubro, em Aspen, ele de repente levou as mãos
ao abdômen e desmaiou no campo. Os exames revelaram que o tumor se rompera,
desencadeando o choque. Recusando-se a ir para o hospital, ele insistiu em
voltar à escola para um último dia. Disse a seus pais que queria que as
crianças se lembrassem dele caminhando de cabeça erguida. Apesar de mantido por
maciças transfusões de sangue e por sedativos, ele percebeu que a viagem para
Saint Louis seria impossível. Começou então a telefonar para as Dashers todas
as noites, estimulando cada uma a dar o máximo de si nas finais.
No início da noite de
23 de novembro, Baker desmaiou outra vez. Quase inconsciente, enquanto os
enfermeiros o colocavam numa ambulância, ele sussurrou para seus pais:
— Certifiquem-se de
que as luzes estejam acesas. Quero ir embora em grande estilo.
Logo após o amanhecer
de 26 de novembro, virou-se na cama do hospital para a mãe, que segurava suas
mãos, e disse:— Sinto ter lhe dado tanto trabalho. — Com um último suspiro, fechou os olhos. Era o Dia de Ação de Graças de 1970, 18 meses após sua primeira visita ao Dr. Johnson. Tinha superado os prognósticos em relação à sua morte por 12 meses.
Dois dias depois, com lágrimas escorrendo por seus rostos, as Duke City Dashers venceram o campeonato
Esse seria o final da história de John Baker, exceto por um fenômeno que ocorreu após seu funeral. Algumas das crianças de Aspen passaram a chamar sua escola de “Escola John Baker” — a idéia de mudança do nome se espalhou como vento. Começou, então, um movimento para tornar o novo nome oficial.
—A escola é nossa —
as crianças diziam — e queremos chamá-la de John Baker. As autoridades de Aspen
levaram o assunto ao comitê educacional de Albuaerque, que sugeriu um
plebiscito. No início da primavera de 1971, 520 familias do distrito de Aspen
votaram. Foram 520 votos a favor.
No mês de maio
daquele ano, em cêrimonia da qual participaram centenas de amigos de Baker
acompanhados de seus filhos, a escola de Aspen oficialmente passou a se chamar
Escola Primaria John Baker. Ela permanece hoje como um monumento visível a um
corajoso jovem que em seus momentos mais dolorosos transformou uma amarga
tragédia em um permanente legado.John Baker não
escolheu ter câncer, mas de fato escolheu sua resposta à doença. Ele decidiu
fazer uma contribuição. Ao concentrar suas últimas energias nos corações e nas
personalidades das crianças, deixou um duradouro legado nas vidas daqueles que
tiveram a sorte de conhecer sua força moral e seu vigor. Ao fazê-lo, ele
certamente foi recompensado com os prêmios que recebem aqueles que têm uma vida
cheia de propósitos e de significado.
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