Após anos escrevendo e ajudando os outros como pastor e médico de almas, Edgar N. Jackson agora aplicava essa sabedoria a ele mesmo. Sofrera um sério derrame que lhe deixara paralisado o lado direito do corpo e o incapacitara de falar. O prognóstico inicial tinha sido grave. Disseram a Estelle, sua esposa de 53 anos, que ele provavelmente não recuperaria a fala. Mas em poucas semanas ele readquirira e decidira-se a recuperar mais ainda suas faculdades.
Ele se levantou para receber-me. Era um homem de meia idade e aparência distinta, apoiava-se numa bengala e tinha um inequívoco brilho no olhar. Conduziu-me ao seu gabinete, onde as paredes estavam cobertas livros novos e velhos e havia uma escrivaninha com um processador de texto e uma quantidade incalculável de jornais e revistas.
Disse como ficava feliz em saber que seus livros me haviam ajudado. E ajudaram mesmo - eu disse -, mas ainda assim uma série de problemas estavam me causando um sofrimento que eu não sabia se era capaz de superar.
- Então, num certo sentido, você está de luto - ele afirmou.
Protestei dizendo que não tinha perdido ninguém próximo. Ele retrucou:
- Mesmo assim, o que você está atravessando está ligado a uma perda. O essencial é viver as perdas plenamente e encontrar alívio ao conviver com elas.
Depois acrescentou:
- As pessoas que não fazem assim acabam amarguradas e desiludidas. Não encontram alívio. Mas as que usam o sofrimento de forma criativa adquirem uma nova sensibilidade e uma fé mais rica. Por isso é que se ouve falar na importância de se expressar os sentimentos falando, chorando, exteriorizando as emoções. Faz parte do luto. Só então vem a cura. Vou lhe mostrar uma coisa - propôs, apontando para um pequeno bosque cujas árvores enfrentavam impávidas os ventos fortes que açoitavam os galhos desfolhados e derrubavam o pó da neve acumulado no dia anterior.
Saímos por uma porta lateral e caminhamos devagar pelo pasto. Notei que fios de arame farpado ligavam as grandes árvores.
- Há 60 anos o homem que plantou essas árvores ligou-as com arame farpado e as usava para cercar o pasto - disse Edgar. - Para as árvores novas, o arame farpado martelado na tenra casca foi uma verdadeira agressão. Algumas resistiram. Outras se adaptaram. Como você pode ver, o arame foi absorvido e incorporado à vida de algumas, mas não daquela ali - indicou uma velha árvore seriamente desfigurada pelo arame. - Porque aquela árvore se feriu combatendo o arame farpado e esta aqui o dominou em vez de se tornar sua vítima?
A árvore próxima não mostrava qualquer cicatriz. Via-se apenas o fio entrando de um lado e saindo do outro.
- Tenho pensado muito nesse bosque - ele disse quando voltávamos para casa. - Que forças internas possibilitaram superar um ferimento produzido pelo arame farpado? Como é que alguém pode transformar a dor num novo crescimento em vez de deixá-la tornar-se uma agressão que destrói a vida?
Edgar admitiu que não sabia explicar o que acontecera com as árvores.
- Mas com as pessoas - continuou - é muito mais claro. Há formas de enfrentar a adversidade e atravessar períodos de sofrimento. Primeiro, tentar manter uma atitude positiva. Depois, não guardar ressentimentos. E, talvez o mais importante, fazer o máximo de esforço para tratar-se com carinho. Isso é que é difícil. Passamos a maior parte do tempo com nós mesmos e tendemos a ser demasiadamente críticos. Assine um tratado de paz com você mesmo, é o que eu aconselho. Perdoe-se pelos erros estúpidos que cometeu.
Olhou pensativo para as árvores e seguiu em direção à casa.
- Se administrarmos o sofrimento com sabedoria, se vivermos profundamente nosso luto, o arame farpado não nos vence. Somos capazes de superar qualquer dor e viver em paz.
Estelle apareceu com um pedaço de bolo de maçã e uma xícara de café.
- Eu procuro desenvolver minha vida buscando novos conhecimentos, novas amizades, novas experiências - ele continuou, olhando o computador novo e meia dúzia de novos livros na escrivaninha. Continuava enfrentando uma paralisia do lado direito, mas não admitia a derrota
- Podemos usar nossas experiências dolorosas como desculpas para desistir. Ou então acreditar nas promessas de renascimento. - Voltou o olhar para o pasto coberto de neve do outro lado da estrada. - Você tem seus problemas. Eu tenho minhas lutas. Enfrentarei as minhas - propôs - se você enfrentar os seus.
- Obrigado, vou fazer isso - prometi, e apertamos as mãos. Tínhamos um acordo. Eu senti que adquirira uma nova compreensão e agora tinha a estratégia para lidar com minhas mágoas.
Quando descia o vale, tive uma ampla visão da fazenda do outro lado dos prados. O vento brincava com as vistosas copas das árvores que, embora ainda misteriosas, tanto tinham a nos dizer.
(Edward Ziegler)
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